Hora de combater

O barulho de explosões
Abala os corpos e as mentes.
As mais fortes vibrações
Evidenciam a ruina eminente.

Já cheira a morte.
As feridas estão por sarar.
A sujidade ameaça contaminar
Tudo e todos.
Ninguém irá escapar a esta sorte.

Chegará a minha vez de combater.
Mas estou desarmado neste arsenal.
Como posso lutar com armas que não sei usar?
Como posso ser letal?
Quero genuinamente vencer,
Mas como? Como posso combater?

O vento sopra do lado inimigo,
Traz o cheiro de vitória e destruição.
Relembro o paraíso antigo,
Perco-me numa longínqua memória
Perante esta ausência de glória.

Chegou o momento!
À carga!!!

Rabiscos de fição política #1 - Nomeações


Que ambiente podre”, suspirou um.
São todos uns filhos da p…”, rugiu outra.

O corrupio nos corredores tinha cessado e o ambiente estava aparentemente calmo. As promessas caiam à medida que cada um ia revelando a sua máscara. Caíram até aqueles disfarces de quem os tinha esquecido que envergava por hábito. Estávamos em época de eleições, parecia estranho mas era tudo normal. Ainda ecoavam as frases feitas do costume e já se pensava em vinganças, umas para servir a frio outras a quente, quando fosse mais saboroso. Já os agradecimentos haveriam de ficar esquecidos como sempre.

Não é fácil fazer listas”, diziam.
“O mérito é aquilo que mais quero garantir na minha equipa”, aspiravam.
Eu mereço mais que ninguém”, revoltavam-se.

Tudo coisas gastas e que todos tinham ouvido e proferido vezes sem conta, sabendo que eram tão relativas como tudo o resto. O partido só não respondia porque não existia. No fundo aquilo era apenas um grupo de pessoas que pouco ou nada tinham em comum para além de acharem que gostavam de política, pelos moldes que os meios de comunicação a apresentavam e as más práticas deturpavam. Ou então era apenas um grupo porque eram pouco mais que um, cada um por si.

Injustiça, injustiça”, gritavam todos os excluídos.

Eram tantos aqueles cujas aspirações foram desfraldadas e em igualmente número os descontentes que, apesar de tudo, atingiam os seus objetivos. Mas como poderia ser de outra forma? Nunca se podia dar tudo a todos, especialmente porque quase ninguém sabia o que queria afinal. No fundo o que todos queriam era a felicidade, mesmo inconscientes da infelicidade que isso poderia proporcionar. A Democracia era aquela coisa estranha que trazemos na ponta da língua e longe da prática de exercício do poder. A democracia era aquela coisa que adjetiva sem substanciar.

Viagem ao buraco negro

Na orla do buraco negro,
Sanguessuga de luz,
Destruidor de matéria,
Vivi uma vida translúcida.

Refleti a escuridão,
Intensificada pelo pior de mim.
Fui o louco navegador
Que lutou inerte contra a gravidade.
Fui o inconsciente sábio
A quem todos aconselharam
Para que tivesse mais sabedoria.

A alma resistia a desprender-se do corpo.
Mas consegui mante-la
Perante a atração autodestruidora.

Fiz de conta que esqueci o medo
Para compreender esta força de atração.
Falhei porque escolhi a compreensão.
Acertei porque a perda de massa,
Do seu peso relativo,
Nunca me preocupou.

Banquete de Carne


As facas suspiram por carne,
Transpiram sangue de nervosismo.
Anseiam por serem afiadas,
Ainda que temam
Perder o sabor a morte do passado.

Peitos abertos
Costas assinaladas
Preparam-se na inocência
Para resistirem às facas.
Há quem prefira uma coxa para entreter.
Certamente se irão juntar
Nabos e repolhos,
Meramente decorativos.
No fundo interessa a carne,
Ainda viva,
Servida à mesa festiva.

Nem a música foi esquecida
Para abafar os gritos
Da dupla matança.
Na há refeição sem morte,
Não há vida sem medo,
Pois quem não temeu não viveu,
Apenas digeriu sem saborear.

A fome aperta,
As entradas já lá vão,
Devoradas com a pressa
De provar a carne.
Bom apetite.

Pura Crença

"Acreditem em mim
E tudo será maravilhoso."
Mas como podíamos acreditar
Numa coisa assim improvável
Que só pode ser credível
Com base na pura crença?

Um nojo

A borbulha explodiu,
Projetando pus pelo ar,
Libertando um cheiro
De fedor que sintonizou
Vómitos e excreções.

O ritmo da podridão
Avançou sobre vomitados e fezes
Que no calor corriam misturadas em diarreia,
Inevitavelmente estagnando,
Inevitavelmente borbulhando
E deixando uma espuma de dejetos
Que ritmava ao sabor da brisa agoniante
Do nojo de toda aquela paisagem.
 

O desfiladeiro

Entre neblinas que ocultam,
Persistem, rodopiando,
Obscuridades incertas,
Trazidas por ventos imprevisíveis.

A luz intermitente cinge-se
Ao mínimo suficiente,
Pois entre vales incertos
Reina sempre a penumbra.

Sobre os colossos de outros tempos,
Esculpidos da rocha pura,
Jazem as esperanças erodidas
Pelos elementos adversos
Desse ambiente desgastante.

A natureza das coisas
Cobriu-se de um manto de dor.
Enquanto dilacera,
Ao longo de muitas vidas humanas,
O desfiladeiro mostra as verdadeiras formas.
Enquanto sangra com chuvas
Lava as suas fragilidades.
Ficam as ruínas sólidas
Da sua verdadeira essência.