Bnaquete de Carne


As facas suspiram por carne,
Transpiram sangue de nervosismo.
Anseiam por serem afiadas,
Ainda que temam
Perder o sabor a morte do passado.

Peitos abertos
Costas assinaladas
Preparam-se na inocência
Para resistirem às facas.
Há quem prefira uma coxa para entreter.
Certamente se irão juntar
Nabos e repolhos,
Meramente decorativos.
No fundo interessa a carne,
Ainda viva,
Servida à mesa festiva.

Nem a música foi esquecida
Para abafar os gritos
Da dupla matança.
Na há refeição sem morte,
Não há vida sem medo,
Pois quem não temeu não viveu,
Apenas digeriu sem saborear.

A fome aperta,
As entradas já lá vão,
Devoradas com a pressa
De provar a carne.
Bom apetite.

Pura Crença

"Acreditem em mim
E tudo será maravilhoso."
Mas como podíamos acreditar
Numa coisa assim improvável
Que só pode ser credível
Com base na pura crença?

Um nojo

A borbulha explodiu,
Projetando pus pelo ar,
Libertando um cheiro
De fedor que sintonizou
Vómitos e excreções.

O ritmo da podridão
Avançou sobre vomitados e fezes
Que no calor corriam misturadas em diarreia,
Inevitavelmente estagnando,
Inevitavelmente borbulhando
E deixando uma espuma de dejetos
Que ritmava ao sabor da brisa agoniante
Do nojo de toda aquela paisagem.
 

O desfiladeiro

Entre neblinas que ocultam,
Persistem, rodopiando,
Obscuridades incertas,
Trazidas por ventos imprevisíveis.

A luz intermitente cinge-se
Ao mínimo suficiente,
Pois entre vales incertos
Reina sempre a penumbra.

Sobre os colossos de outros tempos,
Esculpidos da rocha pura,
Jazem as esperanças erodidas
Pelos elementos adversos
Desse ambiente desgastante.

A natureza das coisas
Cobriu-se de um manto de dor.
Enquanto dilacera,
Ao longo de muitas vidas humanas,
O desfiladeiro mostra as verdadeiras formas.
Enquanto sangra com chuvas
Lava as suas fragilidades.
Ficam as ruínas sólidas
Da sua verdadeira essência.


As palavras dos outros e as minhas

Escrevo como sei.
Escrevo por mim.
Não porque não me emprestem palavras,
Não porque não saiba onde as extrair,
Aquelas dos grandes mestres.
Mas porque as minhas me dizem,
Todos os dias, em jeito de bofetada,
Que ainda mal as sei usar.

Paraísos de outra dimensão

Suportamos cada coisa uns dos outros, somando às dificuldades inevitáveis da vida, que somos forçados a criar paraísos noutras dimensões.

A Queda de um Ídolo

Estava convencido ser de ouro,
Valioso, esteticamente talhado e estável,
Equilibrado na beleza e no peso
Que não temia cair com o vento
Enquanto irradiava o talento
Que lhe cobria o corpo enferrujado
De um interior metálico,
Nada nobre.

Só temia ser roubado
Por outro oportunista.

Aquele dourado era uma mera capa,
Renovada pela sua loucura,
Pela ilusão do seu valor.
Afinal até o peso desaparecia
Com a acção dos dias.
Era um metal não tratado,
Impreparado para a agressão
Interna do trabalho.

Com os anos apenas restava a película dourada,
Suportada pela estrutura precária.
Com uma derradeira brisa caiu.
Só o chão o amparou
Porque era o único sem hipótese de fuga.
Ficou derrotado num estilhaço sem reparo.

No fim vieram os reconstrutores.
Trituram os restos daquele ídolo.
Transformou-se em inerte,
Agora mais útil e verdadeiro
por todos o puderem finalmente pisar.